Our Recent Posts

Tags

Nova abordagem no Tratamento da Esquizofrenia.


Quero começar me desculpando pela minha ausência. Estive envolvida em outros projetos que tomaram grande parte do meu tempo livre. Mas enfim, vamos continuar a desossar esta matéria. Lembrando que originalmente esta matéria foi apresentada na BBC como um especial sobre a saúde mental. E hoje, eu vou fazer um resumo sobre a parte da matéria que foi a mais interessante do programa, na minha opinião. Ela fala de uma pesquisa inovadora sobre o tratamento e porque não falar, a cura da Esquizofrenia.

Vamos conferir...

Quando estava fazendo a minha graduação em Psicologia em meados de 2004, eu tive a oportunidade de estagiar no hospital psiquátrico na Água Funda. Me lembro, com bastante alegria, das aulas de supervisão com o professor e psiquiatra Dr Catulo Magalhães. Porém tinha algo que ele dizia que até hoje me intriga muito, ele dizia. “Todas as técnicas que a equipe multiciplinar realiza neste paciente com Esquizofrenia é para ajudá-lo a ter uma melhor qualidade de vida, para que ele, ainda com a sua doença mental, consiga se enquadrar nos padrões de “normalidade” ”.

Ou seja, eu escutava a palavra melhora, mas nunca ouvia a palavra cura! Sem dúvida alguma a melhora é algo muito importante para a pessoa que sofre este transtorno. Mas a palavra cura parecia improvável naquele momento.

Mas hoje descobri um novo desfecho para esta história. Foi realizado um experimento pela psiquiatra e professora Belinda Lennox da Universidade de Oxford. (https://www.psych.ox.ac.uk/team/belinda-lennox), que irá ajudar a entender a complexidade do assunto.

De tempos em tempos na história da medicina, há um avanço que muda nossa compreensão sobre doenças mentais. Os vitorianos (era do reinado da rainha Vitória no Reino Unido) enviavam, rotineiramente, pacientes com sífilis ao asilo, até descobrirem que a causa real de seu distúrbio mental era uma doença infecciosa.

Mas esses tipos de diagnósticos equivocados não são apenas uma coisa do passado. De fato, descobertas recentes revelam que alguns casos de doenças mentais podem não ser exatamente o que parecem.

Foi o caso de uma estudante que estava iniciando a universidade na Inglaterra e começou a desenvolver sintomas pertubadores. Ela relata que à principio se via desconectada com os demais, não se sentia a vontade com os outros estudantes e começou a se isolar. Ela percebeu que estava emocionalmente pertubada, mas não conseguia entender o que realmente estava acontecendo com ela e o porque de tanta mudança.

Quando ela foi levada ao médico, ela recebeu o diagnóstico de depressão, colocando a pressão do IELTS como desencandeador da doença.

O quadro de saúde desta adolescente só piorava, ela começou a se sentir paranóica e a ver pessoas de sua familia que já tinham morrido e sentir uma ligação com eles. Sintomas esses, clássicos da psicose.

Somente depois de uma convulsão violenta, o Neurologista o Doutor Sarosh Irani, (https://www.ndcn.ox.ac.uk/team/saroshrirani) começou a suspeitar que os sintomas da adolescente poderiam ter uma causa muito diferente do que lhe foi dada como primeiro diagnóstico.

Levando em consideração algumas pistas como o inicio rápido da psicose, associada com sua reação motora enquanto tinha as convulsões e outros sintomas. Ele chegou a conclusão que ela tinha uma forma de encefalite rara, onde os anticorpos produzidos por seu sistema imunológico estavam realmente atacando seu próprio cérebro.

Ela começou um tramento urgente, não para uma doença mental, mas para uma doença auto-imune, retirando do sangue da paciente os anticorpos desonestos que estavam atacando seu cérebro e quase imediatamente, ela teve uma recuperação rápida.

O que aconteceu com esta adolescente nos leva a mudança profunda em nossa compreensão das doenças mentais, mostrando que, pelo menos em alguns casos, o que pode parece ser uma doença psiquiátrica é um mau funcionamento imunológico que requer um tipo de tratamento diferente.

Esta nova descoberta abriu um novo e excitante campo de investigação médica. Na vanguarda da pesquisa a Dra Lennox levantou a hipótese que alguns pacientes com o diagnóstico de esquizofrenia, que apresentaram sintomas semelhantes aos da adolescente, podem ter também uma condição autoimune que ainda não foi reconhecida.

Para descobrir se havia alguma relação, ela realizou um exame de sangue em um grupo de pacientes para ver se eles tinham os mesmos anticorpos desonestos. O teste foi feito em 240 pacientes com diagnostico de esquizofrenia.

E destes, em cerca de 1 em cada 11 pacientes foram encontrados os anticorpos. A Dra Belinda então testou o mesmo tratamento de imunoterapia feito na adolescente em 9 destes pacientes. E os resultados foram surpreendentes, quase todos apresentaram uma recuperação significativa e outros uma recuperação total. Ou seja, a cura!

Pela primeira vez eu escutava a palavra cura. A Dra Belinda iniciou o primeiro ensaio clínico do mundo com imunoterapia para tratar a esquizofrenia. O julgamento da professora Lennox mantém a promessa de que no futuro, os pacientes que parecem ter sintomas de uma doença mental grave podem ser testados quanto a uma condição auto-imune. E em alguns casos, tratados com imunoterapia.

É uma perspectiva tão interessante que a pesquisa já começou em outras universidades para ver se a imunoterapia também pode ser usada em condições comuns como a depressão.

Quando eu estava na faculdade de psicologia me ensinaram que as doenças psiquiátricas eram distintas das doenças fisiológicas. Isso é algo que me intriga desde que comecei a estudar o assunto. Portanto, a idéia de que pode haver uma explicação biológica para uma condição psiquiátrica é um elo que eu acreditava que em alguns casos seria a resposta, tanto quanto acreditava na cura.

Esta pesquisa, ainda que seja nova, é inovadora, pois foi a primeira vez que falaram na possibilidade de tratar ou até mesmo curar, um grupo de pacientes que, de outra forma, seriam condenados a uma vida de saúde mental.

Obrigada a todos que vem me acompanhando.

Abraços e até o proximo post.

Sheila Prates Galvani

Psicoterapeuta

04/03/18